16/01/2018

**Postagem de 09/12/2016** POR QUE LULA CONTINUA EM LIBERDADE?

**Postagem de 09/12/2016**

        A pergunta está no ar. E a primeira resposta possível, por enquanto, é: Lula não vai preso pela mesma razão que o STF regurgitou a decisão de afastar Renan Calheiros da presidência do Senado. Em outras palavras, a explicação está nas amálgamas do poder, nas ramificações do poder, nos tentáculos do poder, no entrelaçamento do poder...
        Raciocinemos: Lula esteve no poder diretamente por oito anos e, indiretamente, através do mandato de Dilma Rousseff, por mais seis anos... É muito tempo de poder, é muito tempo para criar raízes, para expandir lastro, amarrar influência, solidificar amizades...
        Começo a suspeitar que o juiz Sérgio Moro e o pelotão de procuradores que o apoiam não têm força institucional para prender Lula... É dramático isso, mas começamos a perceber que a luta contra essas organizações criminosas que floresceram e se solidificaram durante a Era PT é inglória... e que essas organizações criminosas vão-se perpetuar no poder para desgraça da nação...
        A sessão do STF que preservou grande parte do poder de  Renan Calheiros é sintomática antes de ser deprimente... Nela, na sessão, avista-se com clareza o que é e o que representa o lastro do poder...
        Vários daqueles juízes pareceram muito mais representantes de partidos políticos do que julgadores da Suprema Corte... Na vida privada, se adúlteros fossem, iriam buscar argumentos até nos quintos dos infernos para provar que não prevaricaram... Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Teori Zavascki e até o decano Celso de Mello, fizeram o papel mais de sabujos do que de juízes... E Carmen Lúcia revelou-se uma pequena cidadã, sem a altivez que chegamos a imaginar que ela tivesse...

RENAN, O PROCTOLOGISTA

        A sessão do STF que preservou Renan na presidência do Senado me fez lembrar a história do proctologista de Itu (SP) que organizou uma homenagem a Anselmo Duarte tão logo este, nascido na cidade, recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Orador na solenidade, o proctologista não conseguia falar corretamente o nome do homenageado... No discurso, disparou intermináveis gargalhadas na plateia ao dizer “o Ansermo”, e, corrigindo-se, “o Anselmo....Dualte”.
        Vingou-se com revelações de seus segredos de consultório: “... você aí tá rindo, mas eu já enfiei o dedo no seu c..., no seu também, e no seu também....” A impressão que deu é que Renan já havia examinado a próstata de todos aqueles homens sisudos de toga...
        Grande parte dos crimes cometidos por Lula já é razoavelmente conhecida, mas ainda, como Renan Calheiros, ele canta de galo, desafia a Justiça – já chamou ministros do poderoso STF de covardes – e batalha para derrubar o que ele chama de “República de Curitiba”, o conjunto de procuradores, policiais federais sob comando de Sérgio Moro. Lula é hoje um insulto à Sociedade Brasileira, um acinte, um escárnio...

RIQUEZA DE PURO ROUBO

         Lula deve ser um dos homens mas ricos do país... Seu triplex no Guarujá ou seu belo sítio em Atibaia são fichinhas perto da dinheirama que ele guarda, acumula, amontoa, seja através das empresas do filho Lulinha – que movimentaram mais de 300 milhões de reais de 2015 a 2016, todas empresas de fachada-- seja pelas operações fraudulentas praticadas por seu sobrinho, Taiguara Rodrigues, que embolsou 31 milhões de reais numa só talagada; seja ainda pelas contas bancárias de seu segundo filho, Luleco...
        Sabe-se que ele amealhou dinheiro  grosso desviado da Petrobras, amealhou dinheiro grosso das operações que seu governo realizou com a OI, sabe-se que ele teve participação nas linhas de crédito liberadas pelo BNDES, sabe-se, enfim, que ele foi o Chefão da  Quadrilha que tomou conta do Brasil, como bem denunciou o procurador Deltan Dalagnol,  mas continua em liberdade...
        O mais assustador ainda está por vir... Cláudio Dantas, um dos três comandantes do site O Antagonista, hoje a mais respeitável plataforma informativa do Brasil, levantou a suspeição de que o Caso Renan serviu para selar um acordo política-governo-judiciário para barrar a Lavajato... “Todos concluem – comentou o jornalista – que a Lavajato deixou as coisas sem controle e que, portanto, tem de ser buscado o status quo de antes da operação”.
        Dantas fala rotineiramente com ministros do STF, com lideranças políticas de todos os matizes e com personalidades do governo... Sabe, portanto, o que diz...

A FORÇA DE UM TENTÁCULO

        Falta explicar o que são os tentáculos do poder que mantêm impunes pessoas como Lula, Renan, Dilma, entre tantas outras... Todos nos lembramos de como foi o encontro de Renan Calheiros e Ricardo Lewandowski, então na presidência do STF, na fase final do Impeachment da Dilma... Lembraram dois senhores provectos, cada qual preocupado apenas com o desfecho da deposição de um presidente da República...
        Unidos, foram capazes de produzir o monstrengo do fatiamento do impeachment, atenuando substancialmente a punição a Dilma Rousseff... Tiveram aquela sintonia fina na definição de um crime contra a sociedade brasileira porque já se conheciam bastante bem... Lewandowski é relator do inquérito que apura o recebimento de propina por Renan Calheiros nas operações do CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) parado no STF desde março deste ano...
        Cláudio Dantas costuma referir-se ao fato de a presidente do STF, Carmen Lúcia, sentar-se à mesa com governadores para tratar de nomeações de procuradores e membros da AGU como uma excrecência do sistema, pois é claro que restarão disso cumplicidade e leniência...
        Outro exemplo da cumplicidade que se estabelece em torno dos tentáculos do poder está no gesto do ministro Marco Aurélio que ao dar liminar ao pedido da Rede agia pela eterna gratidão ao PT por favores que o partido prestou à sua família... Casos como esse de Marco Aurélio existem às dezenas nos bastidores da República, basta imaginar a teia de favores que Lula deve ter proporcionado a pessoas que hoje hesitam tanto em colocá-lo atrás das grades...
        E isto tudo para me referir  apenas a uma face da moeda – o tráfico de influência, a troca de favores... Na outra face, temos o poder de nomear ministros do STF, de nomear altos diretores de estatais como a Petrobras, sem falar do reparte de comissões e butins, de valores expressivos no caso de alguém, como Lula, que amealhou tanto dinheiro roubado...   


Imagem da página do face: "To Com a Macaca" 

Renan Calheiros

Marco Aurélio

Celso de Mello

Dias Toffoli

Carmen Lúcia

Teori Zavascki

Ricardo Lewandowski

03/01/2018

O dia em que Deltan Dallagnol acertou na mosca (ou Uma fraude chamada Luiz Inácio LULA da Silva)

        Quem se der ao trabalho de reler o depoimento de Emílio Odebrecht aos promotores da Lava Jato poderá começar a descobrir, se é que ainda não o fez, a grande fraude que sempre se escondeu atrás desse pernambucano de Caetés, 72 anos, que hoje perambula pelo país à caça de apoio para voltar ao poder neste 2018, Luiz Inácio Lula da Silva...

        O capo da Odebrecht descreve em minudências o caráter gelatinoso do líder sindical e o jeito promíscuo de ser do líder político, um continuou o outro sem nenhuma interrupção e qualquer concessão à Ética e à moralidade...

        Ah, mas essas são conclusões tiradas da versão de uma única pessoa!

        Nada disso! Há uma infinidade de outros depoimentos que corroboram as declarações do chefão da Odebrecht e, acima de tudo, há a confirmação pelo próprio Lula de que se tornou amigo de Emílio Odebrecht, de seu filho Marcello Odebrecht e de Léo Pinheiro, o presidente da OAS...

        Um jornalista não pode ser amigo da fonte e um líder operário não pode ser amigo dos patrões, a menos que não se importem em ser colocados sob suspeição...

        Há que se manter a chamada distância crítica – é o que a Ética recomenda. Jamais se pode encarar como normal e decente a amizade de um presidente da República com empreiteiros de obras públicas.

        Mas Luiz Inácio Lula da Silva, cuja ascensão como líder sindical o levou à presidência, quer que a sociedade enxergue como normal e insuspeita sua relação promíscua com empresários historicamente envolvidos em episódios de corrupção...

            30 ANOS DE INTIMIDADE

        A amizade de Lula com Emílio Odebrecht durou mais de 30 anos e foi feita de intensiva troca de favores que resultou no enriquecimento do ex-líder sindical e de toda a sua família – a esposa, filhos e até de um sobrinho obscuro, Taiguara Rodrigues dos Santos, que vivia, sem que ninguém soubesse, em plagas africanas...

        Foi o tucano Mário Covas quem apresentou Emilio Odebrecht a Lula e foi por assim dizer a junção da fome com a vontade de comer: “Lula criou as condições para que eu pudesse ter uma relação diferenciada com os sindicatos”, delatou Emilio...

        Nasceu a amizade e com ela a total promiscuidade:  a Odebrecht contribuiu para todas as campanhas de Lula. Quando o líder sindical virou presidente da República bastava que a empresa tivesse um problema, Emílio ia até o Palácio do Planalto pedir a intervenção direta do amigo... O empresário delatou também que todos os favores que recebeu do presidente ou do líder sindical foram regiamente pagos com dinheiro de caixa um ou caixa dois...

        O empresário que todos viam como grande corruptor usava os banheiros do Palácio do Planalto de porta aberta, como diz o populacho quando quer se referir a uma amizade levada aos extremos da intimidade...

        Emílio tinha total liberdade de ir até o presidente e reivindicar que negócios feitos pela Petrobras em prejuízo da Braskem (braço da Odebrecht no setor petroquímico) fossem desfeitos. Em outro momento, foi a Lula impedir que a Petrobras comprasse os ativos da Petroquímica Ipiranga, o que liquidaria os planos da subsidiária da Odebrecht de ampliar seus mercados.

        Dois anos depois de conseguir impedir a compra pela Petrobras, a própria Braskem comprou a Petroquímica Ipiranga. Tudo muito adequado aos interesses de ambas as partes.

         O TIRO DE DALLAGNOL FOI NO ALVO

        Já não se pode ter qualquer dúvida de que o Power Point do procurador Deltan Dallagnol, da Operação Lava Jato, acertara o alvo ao apresentar Luiz Inácio Lula da Silva como o poderoso chefão de todas as organizações criminosas que emergiram a partir de seu governo, penetrando o governo de Dilma Rousseff, da mesma forma envolvida em casos escabrosos de corrupção...

        Tanto Lula quanto Dilma tiveram conta corrente na empreiteira, roubo de milhões e milhões que tornam as propinas para a posse e reforma do Triplex do Guarujá, para a reforma do sítio de Atibaia, para a compra do terreno para o Instituto Lula, e a remuneração por palestras a 150/200 mil reais cada uma, dinheirinho de cachaça...

        A mesma intimidade que ele manteve com o pai, estabeleceu com o filho, Marcello, que assumiu o poder na empresa da família em 2009... Há vários episódios que demonstram isso, mas fiquemos com apenas um, sem qualquer dúvida, o mais forte para demonstrar a intimidade, a promiscuidade e o compadrio na relação de um governo com empreiteiras de obras públicas: fato inédito na história da República, reuniões de governo para acertar detalhes da construção da Arena Corinthians, em Itaquera, SP, erguida pela Odebrecht, eram realizadas na mansão de Marcello, a mesma onde ele vive hoje a reclusão imposta pela lei após cumprir parte da pena numa cela em Curitiba...

        Tanto Lula quanto Dilma tiveram também conta corrente de milhões na J&F, mas estes talvez sejam crimes que vão prescrever antes de serem totalmente apurados... Não é à toa que as organizações criminosas que açambarcaram grande parte do Congresso Nacional, que marcam forte presença nos demais poderes da República, combatam com tanto ardor e efetividade a Operação Lava Jato...

            E AINDA TEM PASADENA

        Cá no meu canto, tenho grande curiosidade em saber qual foi a propina que Lula e Dilma receberam na compra, pela Petrobras, de uma sucata chamada Pasadena.

        Fora a corrupção deslavada nas obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco; fora também a roubalheira de bilhões no BNDES para financiar a internacionalização do grupo J&F, Pasadena foi o maior escândalo da ERA PT.

        A história de Pasadena tem uma cronologia espantosa: como ministra das Minas e Energia (2003 a 2005), Dilma Rousseff conheceu Albert Frère, um dos homens mais ricos da Bélgica, dono, entre tantas outras empresas, da Astra Transcor Energy, que em 2005 comprara, como sucata, a tal “refinaria” de Pasadena, no Texas (EUA) por US$ 42, 5 milhões.

        Foi Dilma que apresentou Mr. Albert Frère a Lula. Foi outra vez a junção da fome com a vontade de comer...

        Lula, Dilma e Albert Frère formaram um trio inseparável... Viam-se semana sim, semana também...

        Albert Frère transbordava generosidade: deu dinheiro graúdo para a campanha de Lula (reeleição) e financiou o filme “Lula, o filho do Brasil” com a célebre Glória Pires no papel principal....

        Dilma deixaria o Ministério das Minas e Energia para assumir a Casa Civil da presidência da República certamente para estar ainda mais próxima de seu parceiro de governo e de grandes negócios...

        Dilma deixou o Ministério das Minas e Energia, mas manteria um pé vigoroso na Petrobras: ficou como presidente do Conselho de Administração...

        Então, parece que eu ouço Lula cochichando no ouvido de Dilma: “Olha companheira, o Albert me ofereceu uma bela refinaria lá no Texas; se a Petrobras comprar, nós dois nunca mais teremos problema de caixa pra campanha!”

        Foi assim que, em 2006, a sucata chamada Pasadena foi comprada pela Petrobras por US$ 1,12 bilhão, preço mais de 27 vezes maior que o valor desembolsado um  ano antes pela Astra de Albert Frère.

        São todas obras do grande líder que tem nos brindado todas as semanas com mais algumas de suas fraudes: pesquisas que o apontam como candidato imbatível nas eleições presidenciais deste ano! 



Luiz Inacio Lula da Silva, brinquedinho de luxo do empresário Emílio Odebrecht
Deltan Dallagnol: tiro certeiro !

Albert Frére: generosidade em pessoa !

23/12/2017

UMA SAÍDA PARA OS JORNALISTAS!

        Neste 17 de dezembro de 2017, um domingo, recebi a visita, em casa, em Vinhedo, SP, do meu amigo Raul Bastos e de sua companheira de tantos anos, Beatriz Revoredo... Matamos a saudade, conversamos, almoçamos... Fazia mais de 20 anos que não nos víamos... Foi na antevéspera do meu aniversário de 70 anos... Emoções indescritíveis!

        Pra quem não sabe, Raul Bastos é uma lenda do jornalismo brasileiro. Se houvesse uma academia dos imortais do jornalismo, deveria ser entronizado como presidente emérito e vitalício... Foi meu guru, incentivador e inspirador.

        Ao longo da vida, não cheguei a conhecer ninguém com sua argúcia, sua percepção fina da notícia, sua dedicação ao trabalho jornalístico... Raul sempre foi jornalista nas 30 horas do dia! 

         E é denso! Sempre leu muito... Na visita, presenteou-me com “História da Riqueza no Brasil”, de Jorge Caldeira... Comecei a ler... Tenho de me preparar para um mergulho profundo na história deste país que ainda insisto em amar...

        UMA REDE IMORTAL

        Foi Raul Bastos quem montou, tijolo a tijolo, passo a passo, a Rede de Sucursais e Correspondentes do jornal O Estado de São Paulo, hoje uma referência histórica de qualidade em jornalismo...

        Nomeava o jornalista e depois o orientava, acompanhava seu trabalho, incentivava voos cada vez mais altos e mais seguros... Tive o privilégio de entrar para a rede em 1973 pela Sucursal do ABC. 

        Em 1975, eu já trabalhava ao lado dele em São Paulo, no antigo prédio da Major Quedinho... Então, ele me mandou, ao lado do Chefe da Sucursal de Campinas, Roberto Godoy, e do fotógrafo Waldemar Padovani (já falecido), para fazer uma primeira reportagem sobre Itaipu... Iriam começar as obras de construção da maior hidrelétrica do mundo em Foz do Iguaçu e na zona da fronteira de Brasil, Paraguai e Argentina...

        Antes da partida, chamou-me para uma conversa: foram trinta minutos de orientação sobre o trabalho que esperava que eu fizesse... Uma orientação clara, ampla, profunda: saí em viagem compenetrado de que a região que eu iria visitar era especialíssima – fora palco da Guerra do Paraguai, território indígena dizimado, envolvida por questões geopolíticas relevantes...

        Coincidiu que um ano depois, fui enviado pelo mesmo Raul Bastos para reestruturar a Sucursal de Curitiba e lá fiquei por 16 anos, como responsável pela cobertura da construção de Itaipu, da assinatura do tratado Brasil-Paraguai, em 1971, até a inauguração de quase todas as turbinas, em 1998...

        Foi a primeira orientação de Raul Bastos que iria balizar todo o meu trabalho de mais de 15 anos em Foz do Iguaçu... Mais do que isso, aquela conversa de 30 minutos influenciaria toda minha vida de repórter e de jornalista, pois aprendi ali que uma informação é sempre muito mais do que se registra no caderno de anotações... Nunca mais enxerguei Itaipu como uma simples usina hidrelétrica e sim como uma obra estratégica, que ainda há de mudar a história da economia do Paraguai, representando uma super-arma num possível conflito Brasil/Argentina – se as comportas de Itaipu forem abertas de uma só vez quase metade do território argentino será inundada...

         DOIS LIVROS, UMA MISSÃO

        De volta ao almoço de Vinhedo, digo que dois assuntos dominaram a conversa... O primeiro, provocado por mim, é a necessidade emergente de escrevermos dois livros – o primeiro contará a história da rede de sucursais e correspondentes do jornal O Estado de São Paulo e o segundo contará a história da criação e do desenvolvimento da Agência Estado...

        A rede foi, sem dúvida, um capítulo importantíssimo da história do jornalismo brasileiro, um capítulo que precisa ser documentado em livro para que não se percam da memória nacional experiências e iniciativas de um jornalismo que pretendeu ser nacional num território imenso, servido por telex, telégrafo e uma rede de telefonia precaríssima... Só mesmo Raul Bastos para produzir qualidade em condições tão adversas...

        Foi Raul quem criou a Agência Estado... Ela nasceu em 1970 como agência de notícias e foi transformada em agência de informações por Rodrigo Mesquita a contar de 1989. Uma agência de notícias produz material informativo para mídias (reprodução) e uma agência de informações fornece notícias e dados também para mercados, para orientar operações de compra e venda de ativos financeiros, como exemplo...

         Eu participei de ambas as experiências... Fui chefe de duas sucursais (ABC e Curitiba) da rede de Raul Bastos e diretor da Agência Estado nos tempos de Rodrigo Mesquita... Talvez por isso, tenha sido escalado para coordenar o projeto de ambos os livros e já peço ajuda de todos os jornalistas que de algum modo foram envolvidos por um ou por ambos os projetos... Rodrigo Bastos, um dos filhos de Raul, já embarcou no projeto com entusiasmo...  Entramos na fase de catalogar sugestões...

        PREOCUPAÇÃO À PARTE

        Durante o almoço, com alguma apreensão e tristeza, falamos da condição de jornalistas da nossa faixa de idade – dos 60 aos 80 anos – que vivem em dificuldades causadas, de um lado pelas transformações arrasadoras dos meios de comunicação, e de outro pela miserabilidade do sistema previdenciário...

         Pessoas sábias, experientes, que já não encontram empregos minimamente decentes obrigadas a viver de uma aposentadoria ridícula e a pedir ajuda aos filhos para sobreviver com dignidade... 


         Em artigo anterior em meu blog (“Capacho Sindical”), reclamei com severidade da falta de um sindicato para liderar uma discussão mais ampla que trouxesse luz e apoio aos jornalistas nesta hora de disrupção violenta dos meios de comunicação...

        Relembre aqui: 

        "Poucas profissões - escrevi em meu Blog -  têm sofrido um impacto tão forte com as mudanças decretadas pela evolução das tecnologias de informação, quanto a do jornalista, transformado, de verdade, numa borboleta perdida na tempestade... E o Sindicato (dos jornalistas do Estado de São Paulo) poderia neste momento ser um “think-tank”, ou seja, um centro de conhecimento e um farol a iluminar os caminhos do presente e do futuro...

        Só que não!
        
        O Sindicato que já foi de Audálio Dantas, depois de submergir nas trevas e nela permanecer por muitos anos, resolve transformar-se numa espécie de capacho do PT e do Lula!

         Isto é uma vergonha, diria Bóris Casoy, aquele mesmo jornalista que em maio de 1979 impediu que a redação da Folha de São Paulo parasse em razão de uma greve que fora decretada pela primeira influência nefasta da CUT, à qual o Sindicato está até hoje filiado...”

        COOPERATIVAS, UMA SAÍDA

         Pois bem, na falta de um “think-tank”, eu mesmo proponho uma possível saída: que tal começarmos a criar “cooperativas temáticas” que possam remunerar os  jornalistas por produção? Meu amigo Elmar Bones, lá do Rio grande do Sul, poderia se envolver e nos passar detalhes de sua experiência na Coojornal, uma memorável experiência de cooperativismo entre jornalistas...

         Pelo pouco que eu entendo das novas e novíssimas mídias que surgem na esteira do desenvolvimento da internet, digo que a ideia pode dar muito certo... Meu amigo Rodrigo Mesquita, uma das cabeças mais sintonizadas com as mudanças do mercado de comunicações no Brasil, tem-nos mostrado que a informação, hoje, está nas redes sociais, canais de acesso a todas as fontes...

         Vejo que captar, selecionar, tratar (preparar para divulgação), curar (sinônimo de validar ou certificar), informações disponíveis nas redes deve representar um valor que pode ser precificado... Todas essas funções devem ser entregues a boas cooperativas temáticas, pois vão de encontro a tudo aquilo que o jornalista experiente sabe fazer.... 

         É claro que a ideia precisa ser amplamente discutida, ampliada, melhorada, aperfeiçoada, mas dou a largada na discussão indicando duas cooperativas que poderiam ser criadas já, sem mais hesitação – a Cooperativa da Agricultura Familiar e a Cooperativa de Arquitetura e Urbanismo... 

         O campo para produção de conteúdos para a primeira delas é imenso... A Agricultura Familiar vive um momento especial na medida em que tem todas as condições de acompanhar o ritmo acelerado de desenvolvimento do agronegócio... Suas carências – incorporação de novas tecnologias, barreiras da comercialização, como exemplos – podem ser atendidas a começar pela difusão de conteúdos apropriados...

          Já a cooperativa de arquitetura e urbanismo poderia centrar fogo nas questões da acessibilidade urbana e nas novas tecnologias aplicadas às cidades, do saneamento básico às edificações... Onde houver uma inovação, uma solução urbana, haverá um jornalista cooperativado pensando em compartilhá-la...

         Entenda-se que o cooperativismo pode abrir espaços também a bons ilustradores, chargistas, fotógrafos, especialistas na produção de vídeos... Antes de tudo, é preciso que se entenda que todo e qualquer espaço só poderá ser aberto por boas iniciativas empreendedoras...

         O empreendedorismo há de vencer a perplexidade e a inércia!



Um  trio que teve fortes ligações com a rede de sucursais e correspondentes do Estadão...Tanto Adhemar quanto Rodolfo já são falecidos...





Raul Bastos, Toninho, Armindo, Adhemar, Realindo e Olivier, um sexteto comprometido com a rede de sucursais e correspondentes do jornal O Estado de São Paulo...


Rodrigo Mesquita



Obras de Itaipu:






13/12/2017

CAPACHO SINDICAL!

        Escolhi o jornalismo por duas razões: queria, digamos, amplificar um pouco minha influência política e conquistar alguma segurança pra me defender da sanha da Ditadura Militar que então multiplicava seus tentáculos repressores por toda parte, sem fazer distinção de sexo, idade, credo, ideologia ou prática política....

        Vivíamos uma época de muito medo!

        Creio que acertei na escolha! Meus escritos, sempre em contínua evolução tanto na forma quanto em conteúdo, venceram em pouco tempo os limites regionais para ganhar amplitude nacional... Passei menos de três anos como repórter do Diário do Grande ABC (vi de muito perto a ascensão de Lula) e pulei, já como chefe de Sucursal, para o Estadão e Jornal da Tarde - meu primeiro ícone em jornalismo...

        A carteirinha de jornalista serviu-me de escudo muitas vezes, nenhuma delas tão decisiva quanto aquela em que eu e um amigo (Ariverson Feltrin, já falecido) fomos levados de taxi por um SS do Exército, do centro de São Paulo ao quartel da Rua Tutóia, memorável centro de tortura, onde fomos submetidos a interrogatório pesado e só liberados quando descobriram a identidade de jornalista que ambos guardávamos em meio aos documentos que já haviam confiscado... Queriam apenas saber onde o meu amigo havia conseguido a jaqueta de uso privativo do Exército que ele ostentava ao ser abordado no centro-velho de São Paulo...

        O curioso é que eu já desdenhava da importância de um sindicato para defender os interesses de profissionais cuja ferramenta chama-se “massa encefálica”, ainda que muitos não a tivessem em volume minimamente razoável... Sempre encarei o jornalismo como uma função missionária e o jornalista como um profissional liberal com discernimento para negociar com os patrões suas condições de trabalho...

        COM A MORTE DE HERZOG

        Nem pensava em me sindicalizar quando mataram no Doi-Codi – em sessões de tortura – o jornalista da TV Cultura, Wladimir Herzog... Iria descobrir o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, então transformado numa trincheira de resistência à Ditadura pelo presidente, Audálio Dantas.

        E lá estava eu no ato ecumênico em memória de Herzog, coroado pela missa celebrada por dom Evaristo Arns na Catedral da Praça da Sé; em mais alguns dias, o Doi-Codi iria matar sob tortura, outra vez em São Paulo, o operário Manoel Fiel Filho e a mobilização da sociedade paulista, a partir da reação dos jornalistas, forçou o governo do general Ernesto Geisel a substituir o comandante  do II Exército, Ednardo D’Ávila Mello... E São Paulo foi momentaneamente pacificada...

        Descobriu-se, então, que a morte de Herzog e Fiel Filho era uma tentativa, nos porões da Ditadura, de reacender a lucrativa “indústria da repressão e da tortura”, revigorada pelo combate às organizações de esquerda que em 1975 já haviam sido desmanteladas... E o jornalista e o sindicato tiveram peso específico naquela que foi uma primeira batalha para conter os excessos do regime...

        Sindicalizei-me e paguei religiosamente as mensalidades do sindicato, mesmo depois de me transferir para o Paraná onde permaneci por 16 anos... Em Curitiba, onde vivi de 1976 a 1993, tive, digamos, uma atividade sindical esdrúxula: lá, como funcionário da Sucursal do Estadão, eu seguia a orientação do Sindicato de São Paulo, mas por solidariedade participava das movimentações realizadas pelo sindicatos locais... Era como estar entre fogo cruzado e, pelo que me recordo, nenhum sindicato, nem em São Paulo e nem no Paraná, obteve algum êxito mais substancial em campanhas salariais e outras do gênero... Dono de jornal sempre foi uma pessoa muito poderosa...

         PAREI DE PAGAR

        Não me lembro em que ano deixei de pagar o Sindicato... Sei dizer que ao retornar de Curitiba, em 1993, já havia me afastado completamente da vida sindical e voltava a desdenhar da importância do sindicato na vida profissional de um jornalista.

        De 2003 a 2005 vivi os horrores da crise que, em 2009, iria tirar de circulação o jornal Gazeta Mercantil, onde fui diretor por seis anos... Em artigo recente, conto em detalhes como foi a desastrada  tentativa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo de ajudar os funcionários da Gazeta que amargavam vários meses de total inadimplência salarial... Pode-se dizer que o Sindicato mais atrapalhou do que ajudou...

        DECEPÇÃO AINDA MAIOR

        Poucas profissões têm sofrido um impacto tão forte com as mudanças decretadas pela evolução das tecnologias de informação, quanto a do jornalista, transformado, de verdade, numa borboleta perdida na tempestade... E o Sindicato poderia neste momento ser um “think-tank”, ou seja, um centro de conhecimento e um farol a iluminar os caminhos do presente e do futuro...

        Só que não!
       
        O Sindicato que já foi de Audálio Dantas, depois de submergir nas trevas e nela permanecer por muitos anos, resolve transformar-se numa espécie de capacho do PT e do Lula!

        Isto é uma vergonha, diria Bóris Casoy, aquele mesmo jornalista que em maio de 1979 impediu que a redação da Folha de São Paulo parasse em razão de uma greve que fora decretada pela primeira influência nefasta da CUT, à qual o Sindicato está até hoje filiado...





Vladimir Herzog



04/12/2017

CHICO BUARQUE, GERALDO VANDRÉ E OS MENINOS DE CAMPINAS

        Houve uma época em que a esquerda – ela mesma, a esquerda – criticava Chico Buarque de Holanda por suas músicas “intimistas” e cheias de frases que induziam ao comodismo, ao conformismo, à inépcia...

        “O grande ato revolucionário que Chico praticou – diziam – foi colocar o povo na janela pra ver a banda passar cantando coisas de amor!”
        
        As músicas de Chico eram sempre um convite à espera, como se dissessem “ei você aí, cruze os braços, fique tranquilo que o novo dia virá ao seu encontro” e “só então você vai poder cobrar com juros tudo que lhe fizeram”.

        Reparem, por exemplo, na letra de “Apesar de Você”:

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro”

        É uma síntese de tudo o que as esquerdas deploravam em Chico Buarque... Não tenho informações, mas acho que Geraldo Vandré escreveu a sua “Pra não dizer que não falei das flores” para dar um recado a Chico Buarque: “Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”, exatamente o oposto do que Chico pregava.

        A censura amaldiçoou, mas as esquerdas aplaudiram... E transformaram a música de Vandré numa espécie de hino das oposições à Ditadura...

        SÓ A PSICANÁLISE EXPLICA

        Não sou psicanalista, mas acho que no subconsciente do compositor e do homem Chico Buarque de Holanda ficou engavetada a ideia de um estado repressor, de um estado que impõe sacrifícios à população, e de uma sociedade que precisa cobrar com juros todo o mal que este lhe fez...

        O débito é enorme, infindável e a ordem é cobrar, cobrar e cobrar, com juros, com muitos juros...

         Se não for através da Psicanálise, não conseguiremos uma resposta minimamente razoável para a liga, tenaz, indestrutível, de Chico ao PT, a Lula, Dilma, a Cuba, a Fidel Castro...É a ideologia, opina um meu amigo e eu até admito que seja sim, mas creio que exista um fator psicanalítico que vai além das ideologias...

        A incapacidade deste país em se mobilizar; em pelo menos tentar ajudar na solução de um problema é assustadora. Diante de qualquer adversidade, a prática no Brasil é cruzar os braços e esperar que o poder público, a mãe, o pai, o avô, a avó da nação, tome as devidas providências...

        Estamos divididos entre os seguidores de Chico – muitos! – e os seguidores de Vandré – poucos! Há os que cruzam os braços e esperam; e há os que arregaçam as mangas e vão à luta!

        SEGUIDORES DE VANDRÉ AO SUL

        Vamos ver primeiro do que é capaz o seguidor de Vandré, espécie de brasileiro que não fica à espera do estado-mãe, representado pela prefeitura, pelo governo estadual, governo federal ou por uma empresa estatal... Ele tem iniciativa e começa a agir sem cruzar os braços, e, tanto quanto possível, faz as coisas acontecer...

          Em Joinville, Santa Catarina, uma das cidades de forte colonização alemã, ainda existe um corpo de bombeiros formado exclusivamente por voluntários; pessoas da comunidade que recebem treinamento e são capazes de se mobilizar, a qualquer hora do dia ou da noite, para apagar um incêndio. É trabalho vo-lun-tá-ri-o! Sem nenhuma remuneração!

          Em Maringá, no Paraná, e em São José, Santa Catarina, funciona já há algum tempo o Observatório Social, pessoas da comunidade reunidas por uma Ong para fiscalizar, via licitação pública, todos os atos da prefeitura. Em ambas as cidades, a iniciativa já conseguiu conter e denunciar o desvio de milhões de reais...

          O fato dessas iniciativas terem surgido no Sul do País não será mera coincidência. O Sul do Brasil é a região que mais age sob impacto da cultura europeia e talvez por isso as comunidades consigam afastar essa malemolência típica brasileira e que partidos como o PT ajudam a aumentar e fomentar...

          A FACE BONITA DA TRAGÉDIA

        Como repórter, eu cobri e vi de perto as enchentes devastadoras ocorridas em Santa Catarina em 1975 (Tubarão), 1982 (Blumenau) e 1985 (Brusque)...Foi simplesmente fantástico ver como as comunidades dispõem de um estoque infindável de energia e solidariedade para reagir em situações de emergência...

        Em Blumenau, como exemplo, depois da grande enchente vêm as enxurradas, inundações de menor porte que castigam os bairros após qualquer chuva mais forte pois as galerias pluviais entraram em colapso...as enxurradas se repetem e se repetem e a comunidade lava e lava tudo outra vez, lava e pinta as guias de branco, uma, duas, vinte vezes se necessário for - o que a cidade não suporta é ser surpreendida cheia de lama e outras imundícies...

         SEGUIDORES DE CHICO, EM BRASÍLIA

        Já os seguidores de Chico são muito mais numerosos e influentes... Pululam no Congresso Nacional, barram toda e qualquer reforma que tente de algum modo reduzir a dependência da sociedade ao estado-mãe...No fundo, percebem que a redução da “maternidade” estatal significa perda de poder, perda da capacidade de “ajudar” a população...

        Na atitude dos seguidores de Chico está a essência do fisiologismo, do compadrio, da corrupção, a essência da péssima qualidade da política brasileira que faz dos partidos e dos sindicatos entidades parasitárias...

        Em essência, somos um país de parasitas, um país governado por parasitas que transforma o dinheiro dos impostos num grande butim...

         EXEMPLO EM CAMPINAS

         Há uma imensidão de exemplos do que são capazes os seguidores de Chico, mas eu vou ficar com apenas um, claro, insofismável, para ilustrar a índole que faz a desgraça deste país...

        É simples e singelo: a EPTV é a TV Globo da região de Campinas. E eles têm lá um ótimo jornalismo sob comando da jovem Eliane Vieitz...

        Há dias atrás, daqui de Vinhedo, onde moro, eu vejo uma das matérias do que chamam de “acompanhamento” – a reportagem vai a um bairro, identifica um problema e cria uma espécie de agenda do assunto que ficará em aberto até a solução...

        Na primeira da série, as câmeras mostraram um terreno baldio cheio de mato; o local já fora um campo de futebol, mas o esporte foi paralisado pelo crescimento do mato...

        De um lado, via-se o terreno encoberto pelo capim, de outro, via-se um bando de 10 ou 15 adolescentes, todos aparentemente saudáveis e à espera da prefeitura pra “limpar” o terreno...

        A TV intermediou a situação e um dos secretários municipais deu entrevista se comprometendo a realizar a capinação do terreno em mais alguns dias... Na segunda reportagem, os mesmos meninos aparecem alegres, felizes jogando bola no terreno já capinado pela Prefeitura...

        “Ainda falta erguer este alambrado”, exortava o repórter da EPTV, enquanto as câmeras mostravam um alambrado de arame tombado... Vão ficar à espera da Prefeitura por mais algumas semanas, de braços cruzados, para erguer o alambrado, como talvez recomendasse Chico Buarque de Holanda, caso morasse em Campinas...

        Esse é bem o retrato do Brasil!


Chico Buarque de Holanda lança a sua A Banda no festival da Record

Geraldo Vandré canta a sua "Pra não dizer que não falei das flores"










24/11/2017

ZÉ DIRCEU E TANURE, UMA DUPLA DO BARULHO NA AGONIA DA GAZETA MERCANTIL

        É verdade que a empresa que ele recebeu já era um bagaço, mas não precisou nem de sete anos para transformá-la em pó...

        Foi o controlador Luiz Fernando Levy, falecido neste outubro de 2017, que produziu o bagaço e foi Nelson Tanure que transformou em pó toda a história, majestosa, de quase 90 anos, do jornal Gazeta Mercantil – o principal de economia, finanças e negócios da América Latina e um dos sete melhores do mundo, segundo a revista Fortune (EUA)...

        Mereciam um troféu cada um. O primeiro por “suprema incompetência administrativa” e o segundo pela “esperteza salafrária”, tudo o que se pode dizer, hoje, da passagem do empresário Nelson Tanure pela Gazeta Mercantil...

        A agonia da Gazeta Mercantil começou exatamente no dia 15 de setembro de 2001, com o ataque de Bin Laden às Torres Gêmeas de Nova Iorque... O mercado brasileiro de publicidade entrou em recessão e a Gazeta, inchada, sem nenhuma reserva de caixa, iria amargar pelo menos seis meses sem a entrada de anúncios pagos...

        A inanição do caixa iria provocar um desarranjo de tal monta na estrutura de porte nacional da empresa que em menos de três anos já lembrava um organismo abatido e abandonado ao sol do deserto...

        Pronto, estava criado o “aroma” que atrai empresários do tipo de Nelson Tanure, chamados de “abutres” pelo mercado – só se interessam por empresas falimentares e têm uma metodologia especial para ganhar dinheiro nessas situações...

MUITO E MUITO LUCRO

        Os números são imprecisos, pois a gestão Tanure teve índice zero de transparência, mas não seria nenhum exagero dizer que o abutre, ao abandonar a Gazeta em maio de 2009, estava meio bilhão de reais mais rico do que quando obteve, em 2003, através de um processo de chantagem, coação  e mentiras, o arrendamento da marca Gazeta Mercantil por 60 anos...

        Basta observar que ele produziu uma redução brutal na folha de pagamento – uma folha que já custara mais de 200 milhões de reais/ano durante a gestão Levy e que na fase de Tanure, tendo em vista que ele, como prometera, não trabalhou com CLT, caiu para menos de 20 milhões/ano...

        Levou ao extremo a cultura do “não pagar”, sequer reembolsava despesas de viagem, trabalhou todo tempo de costas viradas para as leis do país – trabalhistas, tributárias, previdenciárias...

        Dava a todo instante o drible da vaca em Levy e não cumpriu sequer um terço dos compromissos que assumiu pelo contrato de arrendamento...

        Até onde se sabe,  deixou de receber as verbas da publicidade legal (publicação de balanços, editais e atas exigida por lei no caso das empresas de capital aberto) das empresas estatais – cerca de 20 milhões/ano – porque os credores em ações trabalhistas as interceptaram na boca do caixa.

        Mas isto não fez falta, por certo... Mesmo tendo perdido, em função da crise, uma fatia razoável da publicidade legal, a Gazeta continuou a oferecer ao gestor a generosa receita de cerca de 100 milhões de reais/ano vinda da publicação de balanços e editais pela iniciativa privada... Eram valores mais do que suficientes para o abutre saciar a fome e  tocar a sua gestão, medíocre, mas altamente lucrativa...

AVAL DO PT

        A gestão Tanure foi a excrecência da excrecência do capitalismo. E serve para demonstrar o quanto foi falsa e demagógica a Era PT.

        Ela, a gestão Tanure, nasceu e terminou no governo de Luiz Ignácio Lula da Silva (2003 a 2011). Tanure anunciou diante de mais de duzentas testemunhas que não trabalharia com CLT... Prometeu e cumpriu, sem ser incomodado por um governo que tinha raízes profundas no trabalhismo...

        Além disso, Tanure foi o herdeiro e sucessor legal de Luiz Fernando Levy, que havia acumulado uma dívida portentosa com todas as instituições do governo – fiscais e previdenciárias... Levy chegou a dizer, publicamente, que o governo era o grande financiador do projeto de expansão de sua empresa, já que não pagava seus compromissos com instituições governamentais...

        Tanure passou sete anos à frente da Gazeta Mercantil e, simplesmente, deu continuidade à afronta sem ser incomodado...

        E o que é pior: representado pelo mais importante de seus ministros, o então poderoso Zé Dirceu, o governo Lula avalizou a gestão Tanure. Zé Dirceu comparecia a eventos promovidos pela Gazeta Mercantil e, como farinha do mesmo saco, tornou-se amigo de Nelson Tanure.

        Diria que tinham grandes afinidades no mundo dos negócios.

        Afastado do governo por envolvimento no escândalo do mensalão, foi Zé Dirceu – então como “consultor empresarial” – quem apresentou Tanure ao dono da Editora Três, Domingo Alzugaray (falecido em junho deste 2017)... Não por acaso, a Editora Três – proprietária da Revista Isto É – já disparava também aquele aroma típico de uma empresa falimentar, forte atração para abutres do tipo de Nelson Tanure...

        Tendo o “consultor” Zé Dirceu como intermediário, Tanure entrou em negociação com Alzugaray. Já deveria ter tudo planejado: aplicaria à Editora Três o mesmo formato empregado no “arrendamento” da Gazeta...

        Mais esperto que Levy, Alzugaray pulou para trás na última hora. Aproveitou e pediu ajuda ao “consultor-intermediário” para sair da crise... Pediu e conseguiu... A crise da Editora simplesmente evaporou... E onde será que Zé Dirceu foi arranjar dinheiro pra socorrer Alzugaray ?

        Não se sabe ao certo, mas duas coisas ficaram evidentes nessa época: Zé Dirceu começou a mandar na “Isto É” bem mais que o próprio dono e, mesmo após seu afastamento do governo, sua influência nele era enorme... Quem apostar que Alzugaray obteve socorro num dos bancos governamentais terá grande chance de acertar.

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RECOLHIDO NOS FÓRUNS

        Depois de arrendar a marca de seu jornal a Nelson Tanure, Luiz Fernando Levy achou que poderia manter de pé, cheios de vida, os dois Fóruns de Líderes – o de Líderes Empresariais e o de Líderes Sociais – mesmo sem o apoio que sempre receberam da Gazeta Mercantil.

        Bem antes de morrer, em outubro deste 2017, deve ter descoberto – ou pelo menos suspeitado – de que este era mais um de seus delírios: com a crise que abalou o jornal, os Fóruns estremeceram; com a continuidade da crise, começaram a definhar e, quando em maio de 2009, a Gazeta deixou de circular, os Fóruns morreram. E eu já não estava mais lá, nem pra chorar, nem pra lamentar...

        Quando, em 2004, aceitei o convite de Levy para dirigir o Fórum de Líderes Sociais, o outro Fórum, o de Líderes Empresariais, funcionava em Belo Horizonte. Suas atividades – a organização de eventos e a edição de uma revista, trimestral – foram levadas para Minas Gerais para facilitar a vida do seu então presidente, o economista e pensador Lucio Marcos Bemquerer.

        O Fórum Empresarial, conhecido pela sigla FLE, já fora uma entidade importante. Aglutinava sempre a nata da nata do empresariado brasileiro. Nomes como Antônio Ermírio de Moraes, Abílio Diniz, Cláudio Bardella, Jorge Gerdau Johampeter, José Mindlin, Luiz Fernando Furlan, Olavo Egydio Setubal, Rinaldo Campos Soares se mantiveram em seu Conselho Consultivo até os últimos dias.

        Na década de 1970, os conselheiros do FLE redigiram um documento em favor da democracia que impactou o processo de abertura política do regime militar.

        Hermann Wever, o presidente da paulistana Siemens do Brasil, substituiu Lucio Bemquerer na presidência mas ainda assim as atividades do Fórum se mantiveram em Belo Horizonte.

        Nelson Tanure já imperava na Gazeta e o jornal reduzia, substancialmente, sua ligação com os fóruns, enquanto os conflitos entre Levy e o novo gestor do jornal aumentavam. Aos poucos, Tanure radicalizava a sua “cultura do não pagar”.

        Talvez fosse apenas paranoia, mas Levy começou a temer que lhe aplicassem um golpe e tomassem dele também a gestão dos Fóruns. Agiu rápido: destituiu Hermann Wever do Cargo e nomeou o então presidente da Serasa, Elcio Anibal de Lucca... (na fase terminal do Fórum e da Gazeta, Elcio seria substituído por Ozires Silva)...

        Em seguida, trouxe as atividades do FLE para São Paulo: queria estar perto de tudo para se sentir confiante...

        Entregou-me a edição (mensalizada) da revista Fórum de Líderes como atividade paralela à direção do Fórum de Líderes Sociais... Acertamos, claramente, mais uma remuneração pela nova atividade... Deixei claro para ele que mesmo somando as duas remunerações não atingia o salário que eu estaria recebendo pela Gazeta Mercantil.

ENFIM, UMA ATIVIDADE AGRADÁVEL

        A edição da Revista Fórum de Líderes foi das poucas atividades que me deram prazer nos meus oito anos de Gazeta Mercantil. Fiz entrevistas e editei reportagens memoráveis...

        Fui talvez um dos primeiros jornalistas a entrevistar Roberto Rodrigues, tão logo renunciou ao Ministério da Agricultura... Produzimos um claro entendimento das razões que o levaram a deixar o governo Lula e avançamos em informações que permitiram prever o boom do agronegócio que o país passaria a viver em seguida...

        Entrevistei Roberto Romano, professor e filósofo da Unicamp, que previu a imersão do Brasil na avassaladora crise Ética dos dias atuais... A meu pedido, a jornalista  Ruth  Helena Ballinghini, especializada em Ciência, fez uma entrevista de impacto com a geneticista Mayana Zats com explicações didáticas sobre a diferença entre células-tronco e células-tronco embrionárias, compreensão capital para o entendimento dos avanços do uso da genética  em tratamento de doenças crônicas e lesões medulares...

        Na primeira edição da nova fase, a revista publicou extensa reportagem, produzida pelo jornalista Lucas Tavares, então residente em Santiago, sobre a enigmática vitalidade da economia chilena... Lucas ouviu praticamente todos os mais expressivos economistas chilenos, inclusive vários dos Chicago’s Boys, como eram chamados os jovens egressos da Universidade de Chicago, que sob o mando do tenebroso Augusto Pinochet, impuseram ao Chile uma experiência radical da teoria neoliberalista... Se foi guardada  em alguma biblioteca, essa revista deve ser fonte obrigatória de consulta a quem quiser entender porque o Chile tem dado tão certo...

DOIS GRANDES ARTISTAS

        Foi também durante o trabalho de edição da Fórum de Líderes que eu conheci e aprendi a admirar Jô Acs e Mozart Acs, pai e filho, dois artistas gráficos simplesmente geniais. Eles me foram apresentados pelo amigo Antonio Carlos Baumann e me acompanharam do começo ao fim da jornada pelo Fórum...

        Aprendi com eles que arte gráfica em revista e internet é coisa especializada e séria... Por mais ferramentas de ajuda que a internet nos oferece hoje em dia, não se deve improvisar... Um site e uma revista feitos por amador, terão sempre cara de amador...

        Lembro-me que Levy era sempre tomado por uma forte expectativa nos dias que antecediam a chegada de uma nova edição da revista... Sempre vinham me contar que ele apanhava um exemplar, folheava, sorria e fazia sinais de aprovação com a cabeça... Nunca me fez – seu estilo – elogios rasgados pelo trabalho, mas também nunca fez nenhuma queixa por algo que o desagradasse, a não ser uma vez, na fase final do meu trabalho ao lado dele...

        Ele me pedira para entrevistar o dono do Rubaiyat, seu amigo Belarmino Iglesias (falecido também neste 2017)... Fiz a entrevista e me encantei com o personagem... Contei com emoção a saga do garçom espanhol que desembarcara ainda jovem no porto de Santos, sem dinheiro no bolso, e se transformara no dono de uma das redes de restaurantes mais sofisticadas do mundo, com três lojas em São Paulo, todas em bairro de elite, uma em Buenos Aires (foi ele que apresentou a picanha aos argentinos) e outra em Madrid, na Espanha...

        A revista circulou e eu na primeira oportunidade perguntei a Levy:

        - Viu a matéria do Belarmino? Gostou ?

        Ele:

        - Vi... Ficou boa. Faltou o “i” do Rubaiyat, né? É um erro que não pode acontecer...

        Liguei meus radares... Comecei a me lembrar com mais frequência do  que me dissera meu saudoso amigo Cláudio Lachini tão logo soube que eu iria trabalhar em linha direta com Levy:

        - Fique esperto! Quando menos esperar, ele lhe trai... Trair faz parte da índole deste senhor!

        Uma semana depois, eu e Levy fomos almoçar com Belarmino Iglesias no Rubaiyiat-Porto, em São Paulo. Levy havia me pedido pra escrever um livro sobre a campanha, liderada pela Gazeta Mercantil, que introduziu o novilho precoce no Brasil. Belarmino Iglesias havia sido um importante personagem da campanha e Levy queria que tivéssemos uma primeira conversa pra acertar detalhes de uma entrevista mais longa, para o livro... Fiquei impressionado com o modo gentil com que Belarmino Iglesias me tratou  durante todo o almoço... Saí do restaurante ao lado  dele, abraçou-me para dizer ao pé do ouvido:

        - Foram as melhores palavras que já escreveram sobre mim durante toda minha vida...lindas, lindas, lindas !

        E eu que pensei que ele iria reclamar da falta do “i”...

E APARECE O VERDADEIRO CARÁTER

        Já em agonia, os Fóruns foram transferidos para uma sala apertada de uma torre comercial pertencente a um dos amigos de Levy numa travessa da avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini (SP)....

        O aperto, para azar do patrão, não comportava segredos e nem cochichos...De modo que eu ouvi tudo, desde o momento que ele, Levy, ordenou a dois de seus capachos, o ex-cunhado Gustavo Aranha entre eles, a me espremer para forçar minha saída até a comemoração – “Ótimo, ótimo!” – ao receber a  informação de que eu havia capitulado...

        Se recusavam a admitir que eu havia combinado com Luiz Fernando Levy uma remuneração extra pela edição da revista embora todos pudessem observar que as atividades do Fórum Social nunca sofreram interrupção... Coisas de gente sem caráter...

        No fundo, caí em desgraça com Luiz Fernando ao contrariar, por puro profissionalismo, o interesse na revista de um de seus chupins familiares... Foi o que aconteceu...  


Belarmino Iglesias


 Restaurante Figueira Rubaiyat