23/12/2017

UMA SAÍDA PARA OS JORNALISTAS!

        Neste 17 de dezembro de 2017, um domingo, recebi a visita, em casa, em Vinhedo, SP, do meu amigo Raul Bastos e de sua companheira de tantos anos, Beatriz Revoredo... Matamos a saudade, conversamos, almoçamos... Fazia mais de 20 anos que não nos víamos... Foi na antevéspera do meu aniversário de 70 anos... Emoções indescritíveis!

        Pra quem não sabe, Raul Bastos é uma lenda do jornalismo brasileiro. Se houvesse uma academia dos imortais do jornalismo, deveria ser entronizado como presidente emérito e vitalício... Foi meu guru, incentivador e inspirador.

        Ao longo da vida, não cheguei a conhecer ninguém com sua argúcia, sua percepção fina da notícia, sua dedicação ao trabalho jornalístico... Raul sempre foi jornalista nas 30 horas do dia! 

         E é denso! Sempre leu muito... Na visita, presenteou-me com “História da Riqueza no Brasil”, de Jorge Caldeira... Comecei a ler... Tenho de me preparar para um mergulho profundo na história deste país que ainda insisto em amar...

        UMA REDE IMORTAL

        Foi Raul Bastos quem montou, tijolo a tijolo, passo a passo, a Rede de Sucursais e Correspondentes do jornal O Estado de São Paulo, hoje uma referência histórica de qualidade em jornalismo...

        Nomeava o jornalista e depois o orientava, acompanhava seu trabalho, incentivava voos cada vez mais altos e mais seguros... Tive o privilégio de entrar para a rede em 1973 pela Sucursal do ABC. 

        Em 1975, eu já trabalhava ao lado dele em São Paulo, no antigo prédio da Major Quedinho... Então, ele me mandou, ao lado do Chefe da Sucursal de Campinas, Roberto Godoy, e do fotógrafo Waldemar Padovani (já falecido), para fazer uma primeira reportagem sobre Itaipu... Iriam começar as obras de construção da maior hidrelétrica do mundo em Foz do Iguaçu e na zona da fronteira de Brasil, Paraguai e Argentina...

        Antes da partida, chamou-me para uma conversa: foram trinta minutos de orientação sobre o trabalho que esperava que eu fizesse... Uma orientação clara, ampla, profunda: saí em viagem compenetrado de que a região que eu iria visitar era especialíssima – fora palco da Guerra do Paraguai, território indígena dizimado, envolvida por questões geopolíticas relevantes...

        Coincidiu que um ano depois, fui enviado pelo mesmo Raul Bastos para reestruturar a Sucursal de Curitiba e lá fiquei por 16 anos, como responsável pela cobertura da construção de Itaipu, da assinatura do tratado Brasil-Paraguai, em 1971, até a inauguração de quase todas as turbinas, em 1998...

        Foi a primeira orientação de Raul Bastos que iria balizar todo o meu trabalho de mais de 15 anos em Foz do Iguaçu... Mais do que isso, aquela conversa de 30 minutos influenciaria toda minha vida de repórter e de jornalista, pois aprendi ali que uma informação é sempre muito mais do que se registra no caderno de anotações... Nunca mais enxerguei Itaipu como uma simples usina hidrelétrica e sim como uma obra estratégica, que ainda há de mudar a história da economia do Paraguai, representando uma super-arma num possível conflito Brasil/Argentina – se as comportas de Itaipu forem abertas de uma só vez quase metade do território argentino será inundada...

         DOIS LIVROS, UMA MISSÃO

        De volta ao almoço de Vinhedo, digo que dois assuntos dominaram a conversa... O primeiro, provocado por mim, é a necessidade emergente de escrevermos dois livros – o primeiro contará a história da rede de sucursais e correspondentes do jornal O Estado de São Paulo e o segundo contará a história da criação e do desenvolvimento da Agência Estado...

        A rede foi, sem dúvida, um capítulo importantíssimo da história do jornalismo brasileiro, um capítulo que precisa ser documentado em livro para que não se percam da memória nacional experiências e iniciativas de um jornalismo que pretendeu ser nacional num território imenso, servido por telex, telégrafo e uma rede de telefonia precaríssima... Só mesmo Raul Bastos para produzir qualidade em condições tão adversas...

        Foi Raul quem criou a Agência Estado... Ela nasceu em 1970 como agência de notícias e foi transformada em agência de informações por Rodrigo Mesquita a contar de 1989. Uma agência de notícias produz material informativo para mídias (reprodução) e uma agência de informações fornece notícias e dados também para mercados, para orientar operações de compra e venda de ativos financeiros, como exemplo...

         Eu participei de ambas as experiências... Fui chefe de duas sucursais (ABC e Curitiba) da rede de Raul Bastos e diretor da Agência Estado nos tempos de Rodrigo Mesquita... Talvez por isso, tenha sido escalado para coordenar o projeto de ambos os livros e já peço ajuda de todos os jornalistas que de algum modo foram envolvidos por um ou por ambos os projetos... Rodrigo Bastos, um dos filhos de Raul, já embarcou no projeto com entusiasmo...  Entramos na fase de catalogar sugestões...

        PREOCUPAÇÃO À PARTE

        Durante o almoço, com alguma apreensão e tristeza, falamos da condição de jornalistas da nossa faixa de idade – dos 60 aos 80 anos – que vivem em dificuldades causadas, de um lado pelas transformações arrasadoras dos meios de comunicação, e de outro pela miserabilidade do sistema previdenciário...

         Pessoas sábias, experientes, que já não encontram empregos minimamente decentes obrigadas a viver de uma aposentadoria ridícula e a pedir ajuda aos filhos para sobreviver com dignidade... 


         Em artigo anterior em meu blog (“Capacho Sindical”), reclamei com severidade da falta de um sindicato para liderar uma discussão mais ampla que trouxesse luz e apoio aos jornalistas nesta hora de disrupção violenta dos meios de comunicação...

        Relembre aqui: 

        "Poucas profissões - escrevi em meu Blog -  têm sofrido um impacto tão forte com as mudanças decretadas pela evolução das tecnologias de informação, quanto a do jornalista, transformado, de verdade, numa borboleta perdida na tempestade... E o Sindicato (dos jornalistas do Estado de São Paulo) poderia neste momento ser um “think-tank”, ou seja, um centro de conhecimento e um farol a iluminar os caminhos do presente e do futuro...

        Só que não!
        
        O Sindicato que já foi de Audálio Dantas, depois de submergir nas trevas e nela permanecer por muitos anos, resolve transformar-se numa espécie de capacho do PT e do Lula!

         Isto é uma vergonha, diria Bóris Casoy, aquele mesmo jornalista que em maio de 1979 impediu que a redação da Folha de São Paulo parasse em razão de uma greve que fora decretada pela primeira influência nefasta da CUT, à qual o Sindicato está até hoje filiado...”

        COOPERATIVAS, UMA SAÍDA

         Pois bem, na falta de um “think-tank”, eu mesmo proponho uma possível saída: que tal começarmos a criar “cooperativas temáticas” que possam remunerar os  jornalistas por produção? Meu amigo Elmar Bones, lá do Rio grande do Sul, poderia se envolver e nos passar detalhes de sua experiência na Coojornal, uma memorável experiência de cooperativismo entre jornalistas...

         Pelo pouco que eu entendo das novas e novíssimas mídias que surgem na esteira do desenvolvimento da internet, digo que a ideia pode dar muito certo... Meu amigo Rodrigo Mesquita, uma das cabeças mais sintonizadas com as mudanças do mercado de comunicações no Brasil, tem-nos mostrado que a informação, hoje, está nas redes sociais, canais de acesso a todas as fontes...

         Vejo que captar, selecionar, tratar (preparar para divulgação), curar (sinônimo de validar ou certificar), informações disponíveis nas redes deve representar um valor que pode ser precificado... Todas essas funções devem ser entregues a boas cooperativas temáticas, pois vão de encontro a tudo aquilo que o jornalista experiente sabe fazer.... 

         É claro que a ideia precisa ser amplamente discutida, ampliada, melhorada, aperfeiçoada, mas dou a largada na discussão indicando duas cooperativas que poderiam ser criadas já, sem mais hesitação – a Cooperativa da Agricultura Familiar e a Cooperativa de Arquitetura e Urbanismo... 

         O campo para produção de conteúdos para a primeira delas é imenso... A Agricultura Familiar vive um momento especial na medida em que tem todas as condições de acompanhar o ritmo acelerado de desenvolvimento do agronegócio... Suas carências – incorporação de novas tecnologias, barreiras da comercialização, como exemplos – podem ser atendidas a começar pela difusão de conteúdos apropriados...

          Já a cooperativa de arquitetura e urbanismo poderia centrar fogo nas questões da acessibilidade urbana e nas novas tecnologias aplicadas às cidades, do saneamento básico às edificações... Onde houver uma inovação, uma solução urbana, haverá um jornalista cooperativado pensando em compartilhá-la...

         Entenda-se que o cooperativismo pode abrir espaços também a bons ilustradores, chargistas, fotógrafos, especialistas na produção de vídeos... Antes de tudo, é preciso que se entenda que todo e qualquer espaço só poderá ser aberto por boas iniciativas empreendedoras...

         O empreendedorismo há de vencer a perplexidade e a inércia!



Um  trio que teve fortes ligações com a rede de sucursais e correspondentes do Estadão...Tanto Adhemar quanto Rodolfo já são falecidos...





Raul Bastos, Toninho, Armindo, Adhemar, Realindo e Olivier, um sexteto comprometido com a rede de sucursais e correspondentes do jornal O Estado de São Paulo...


Rodrigo Mesquita



Obras de Itaipu:






13/12/2017

CAPACHO SINDICAL!

        Escolhi o jornalismo por duas razões: queria, digamos, amplificar um pouco minha influência política e conquistar alguma segurança pra me defender da sanha da Ditadura Militar que então multiplicava seus tentáculos repressores por toda parte, sem fazer distinção de sexo, idade, credo, ideologia ou prática política....

        Vivíamos uma época de muito medo!

        Creio que acertei na escolha! Meus escritos, sempre em contínua evolução tanto na forma quanto em conteúdo, venceram em pouco tempo os limites regionais para ganhar amplitude nacional... Passei menos de três anos como repórter do Diário do Grande ABC (vi de muito perto a ascensão de Lula) e pulei, já como chefe de Sucursal, para o Estadão e Jornal da Tarde - meu primeiro ícone em jornalismo...

        A carteirinha de jornalista serviu-me de escudo muitas vezes, nenhuma delas tão decisiva quanto aquela em que eu e um amigo (Ariverson Feltrin, já falecido) fomos levados de taxi por um SS do Exército, do centro de São Paulo ao quartel da Rua Tutóia, memorável centro de tortura, onde fomos submetidos a interrogatório pesado e só liberados quando descobriram a identidade de jornalista que ambos guardávamos em meio aos documentos que já haviam confiscado... Queriam apenas saber onde o meu amigo havia conseguido a jaqueta de uso privativo do Exército que ele ostentava ao ser abordado no centro-velho de São Paulo...

        O curioso é que eu já desdenhava da importância de um sindicato para defender os interesses de profissionais cuja ferramenta chama-se “massa encefálica”, ainda que muitos não a tivessem em volume minimamente razoável... Sempre encarei o jornalismo como uma função missionária e o jornalista como um profissional liberal com discernimento para negociar com os patrões suas condições de trabalho...

        COM A MORTE DE HERZOG

        Nem pensava em me sindicalizar quando mataram no Doi-Codi – em sessões de tortura – o jornalista da TV Cultura, Wladimir Herzog... Iria descobrir o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, então transformado numa trincheira de resistência à Ditadura pelo presidente, Audálio Dantas.

        E lá estava eu no ato ecumênico em memória de Herzog, coroado pela missa celebrada por dom Evaristo Arns na Catedral da Praça da Sé; em mais alguns dias, o Doi-Codi iria matar sob tortura, outra vez em São Paulo, o operário Manoel Fiel Filho e a mobilização da sociedade paulista, a partir da reação dos jornalistas, forçou o governo do general Ernesto Geisel a substituir o comandante  do II Exército, Ednardo D’Ávila Mello... E São Paulo foi momentaneamente pacificada...

        Descobriu-se, então, que a morte de Herzog e Fiel Filho era uma tentativa, nos porões da Ditadura, de reacender a lucrativa “indústria da repressão e da tortura”, revigorada pelo combate às organizações de esquerda que em 1975 já haviam sido desmanteladas... E o jornalista e o sindicato tiveram peso específico naquela que foi uma primeira batalha para conter os excessos do regime...

        Sindicalizei-me e paguei religiosamente as mensalidades do sindicato, mesmo depois de me transferir para o Paraná onde permaneci por 16 anos... Em Curitiba, onde vivi de 1976 a 1993, tive, digamos, uma atividade sindical esdrúxula: lá, como funcionário da Sucursal do Estadão, eu seguia a orientação do Sindicato de São Paulo, mas por solidariedade participava das movimentações realizadas pelo sindicatos locais... Era como estar entre fogo cruzado e, pelo que me recordo, nenhum sindicato, nem em São Paulo e nem no Paraná, obteve algum êxito mais substancial em campanhas salariais e outras do gênero... Dono de jornal sempre foi uma pessoa muito poderosa...

         PAREI DE PAGAR

        Não me lembro em que ano deixei de pagar o Sindicato... Sei dizer que ao retornar de Curitiba, em 1993, já havia me afastado completamente da vida sindical e voltava a desdenhar da importância do sindicato na vida profissional de um jornalista.

        De 2003 a 2005 vivi os horrores da crise que, em 2009, iria tirar de circulação o jornal Gazeta Mercantil, onde fui diretor por seis anos... Em artigo recente, conto em detalhes como foi a desastrada  tentativa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo de ajudar os funcionários da Gazeta que amargavam vários meses de total inadimplência salarial... Pode-se dizer que o Sindicato mais atrapalhou do que ajudou...

        DECEPÇÃO AINDA MAIOR

        Poucas profissões têm sofrido um impacto tão forte com as mudanças decretadas pela evolução das tecnologias de informação, quanto a do jornalista, transformado, de verdade, numa borboleta perdida na tempestade... E o Sindicato poderia neste momento ser um “think-tank”, ou seja, um centro de conhecimento e um farol a iluminar os caminhos do presente e do futuro...

        Só que não!
       
        O Sindicato que já foi de Audálio Dantas, depois de submergir nas trevas e nela permanecer por muitos anos, resolve transformar-se numa espécie de capacho do PT e do Lula!

        Isto é uma vergonha, diria Bóris Casoy, aquele mesmo jornalista que em maio de 1979 impediu que a redação da Folha de São Paulo parasse em razão de uma greve que fora decretada pela primeira influência nefasta da CUT, à qual o Sindicato está até hoje filiado...





Vladimir Herzog



04/12/2017

CHICO BUARQUE, GERALDO VANDRÉ E OS MENINOS DE CAMPINAS

        Houve uma época em que a esquerda – ela mesma, a esquerda – criticava Chico Buarque de Holanda por suas músicas “intimistas” e cheias de frases que induziam ao comodismo, ao conformismo, à inépcia...

        “O grande ato revolucionário que Chico praticou – diziam – foi colocar o povo na janela pra ver a banda passar cantando coisas de amor!”
        
        As músicas de Chico eram sempre um convite à espera, como se dissessem “ei você aí, cruze os braços, fique tranquilo que o novo dia virá ao seu encontro” e “só então você vai poder cobrar com juros tudo que lhe fizeram”.

        Reparem, por exemplo, na letra de “Apesar de Você”:

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro”

        É uma síntese de tudo o que as esquerdas deploravam em Chico Buarque... Não tenho informações, mas acho que Geraldo Vandré escreveu a sua “Pra não dizer que não falei das flores” para dar um recado a Chico Buarque: “Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”, exatamente o oposto do que Chico pregava.

        A censura amaldiçoou, mas as esquerdas aplaudiram... E transformaram a música de Vandré numa espécie de hino das oposições à Ditadura...

        SÓ A PSICANÁLISE EXPLICA

        Não sou psicanalista, mas acho que no subconsciente do compositor e do homem Chico Buarque de Holanda ficou engavetada a ideia de um estado repressor, de um estado que impõe sacrifícios à população, e de uma sociedade que precisa cobrar com juros todo o mal que este lhe fez...

        O débito é enorme, infindável e a ordem é cobrar, cobrar e cobrar, com juros, com muitos juros...

         Se não for através da Psicanálise, não conseguiremos uma resposta minimamente razoável para a liga, tenaz, indestrutível, de Chico ao PT, a Lula, Dilma, a Cuba, a Fidel Castro...É a ideologia, opina um meu amigo e eu até admito que seja sim, mas creio que exista um fator psicanalítico que vai além das ideologias...

        A incapacidade deste país em se mobilizar; em pelo menos tentar ajudar na solução de um problema é assustadora. Diante de qualquer adversidade, a prática no Brasil é cruzar os braços e esperar que o poder público, a mãe, o pai, o avô, a avó da nação, tome as devidas providências...

        Estamos divididos entre os seguidores de Chico – muitos! – e os seguidores de Vandré – poucos! Há os que cruzam os braços e esperam; e há os que arregaçam as mangas e vão à luta!

        SEGUIDORES DE VANDRÉ AO SUL

        Vamos ver primeiro do que é capaz o seguidor de Vandré, espécie de brasileiro que não fica à espera do estado-mãe, representado pela prefeitura, pelo governo estadual, governo federal ou por uma empresa estatal... Ele tem iniciativa e começa a agir sem cruzar os braços, e, tanto quanto possível, faz as coisas acontecer...

          Em Joinville, Santa Catarina, uma das cidades de forte colonização alemã, ainda existe um corpo de bombeiros formado exclusivamente por voluntários; pessoas da comunidade que recebem treinamento e são capazes de se mobilizar, a qualquer hora do dia ou da noite, para apagar um incêndio. É trabalho vo-lun-tá-ri-o! Sem nenhuma remuneração!

          Em Maringá, no Paraná, e em São José, Santa Catarina, funciona já há algum tempo o Observatório Social, pessoas da comunidade reunidas por uma Ong para fiscalizar, via licitação pública, todos os atos da prefeitura. Em ambas as cidades, a iniciativa já conseguiu conter e denunciar o desvio de milhões de reais...

          O fato dessas iniciativas terem surgido no Sul do País não será mera coincidência. O Sul do Brasil é a região que mais age sob impacto da cultura europeia e talvez por isso as comunidades consigam afastar essa malemolência típica brasileira e que partidos como o PT ajudam a aumentar e fomentar...

          A FACE BONITA DA TRAGÉDIA

        Como repórter, eu cobri e vi de perto as enchentes devastadoras ocorridas em Santa Catarina em 1975 (Tubarão), 1982 (Blumenau) e 1985 (Brusque)...Foi simplesmente fantástico ver como as comunidades dispõem de um estoque infindável de energia e solidariedade para reagir em situações de emergência...

        Em Blumenau, como exemplo, depois da grande enchente vêm as enxurradas, inundações de menor porte que castigam os bairros após qualquer chuva mais forte pois as galerias pluviais entraram em colapso...as enxurradas se repetem e se repetem e a comunidade lava e lava tudo outra vez, lava e pinta as guias de branco, uma, duas, vinte vezes se necessário for - o que a cidade não suporta é ser surpreendida cheia de lama e outras imundícies...

         SEGUIDORES DE CHICO, EM BRASÍLIA

        Já os seguidores de Chico são muito mais numerosos e influentes... Pululam no Congresso Nacional, barram toda e qualquer reforma que tente de algum modo reduzir a dependência da sociedade ao estado-mãe...No fundo, percebem que a redução da “maternidade” estatal significa perda de poder, perda da capacidade de “ajudar” a população...

        Na atitude dos seguidores de Chico está a essência do fisiologismo, do compadrio, da corrupção, a essência da péssima qualidade da política brasileira que faz dos partidos e dos sindicatos entidades parasitárias...

        Em essência, somos um país de parasitas, um país governado por parasitas que transforma o dinheiro dos impostos num grande butim...

         EXEMPLO EM CAMPINAS

         Há uma imensidão de exemplos do que são capazes os seguidores de Chico, mas eu vou ficar com apenas um, claro, insofismável, para ilustrar a índole que faz a desgraça deste país...

        É simples e singelo: a EPTV é a TV Globo da região de Campinas. E eles têm lá um ótimo jornalismo sob comando da jovem Eliane Vieitz...

        Há dias atrás, daqui de Vinhedo, onde moro, eu vejo uma das matérias do que chamam de “acompanhamento” – a reportagem vai a um bairro, identifica um problema e cria uma espécie de agenda do assunto que ficará em aberto até a solução...

        Na primeira da série, as câmeras mostraram um terreno baldio cheio de mato; o local já fora um campo de futebol, mas o esporte foi paralisado pelo crescimento do mato...

        De um lado, via-se o terreno encoberto pelo capim, de outro, via-se um bando de 10 ou 15 adolescentes, todos aparentemente saudáveis e à espera da prefeitura pra “limpar” o terreno...

        A TV intermediou a situação e um dos secretários municipais deu entrevista se comprometendo a realizar a capinação do terreno em mais alguns dias... Na segunda reportagem, os mesmos meninos aparecem alegres, felizes jogando bola no terreno já capinado pela Prefeitura...

        “Ainda falta erguer este alambrado”, exortava o repórter da EPTV, enquanto as câmeras mostravam um alambrado de arame tombado... Vão ficar à espera da Prefeitura por mais algumas semanas, de braços cruzados, para erguer o alambrado, como talvez recomendasse Chico Buarque de Holanda, caso morasse em Campinas...

        Esse é bem o retrato do Brasil!


Chico Buarque de Holanda lança a sua A Banda no festival da Record

Geraldo Vandré canta a sua "Pra não dizer que não falei das flores"










24/11/2017

ZÉ DIRCEU E TANURE, UMA DUPLA DO BARULHO NA AGONIA DA GAZETA MERCANTIL

        É verdade que a empresa que ele recebeu já era um bagaço, mas não precisou nem de sete anos para transformá-la em pó...

        Foi o controlador Luiz Fernando Levy, falecido neste outubro de 2017, que produziu o bagaço e foi Nelson Tanure que transformou em pó toda a história, majestosa, de quase 90 anos, do jornal Gazeta Mercantil – o principal de economia, finanças e negócios da América Latina e um dos sete melhores do mundo, segundo a revista Fortune (EUA)...

        Mereciam um troféu cada um. O primeiro por “suprema incompetência administrativa” e o segundo pela “esperteza salafrária”, tudo o que se pode dizer, hoje, da passagem do empresário Nelson Tanure pela Gazeta Mercantil...

        A agonia da Gazeta Mercantil começou exatamente no dia 15 de setembro de 2001, com o ataque de Bin Laden às Torres Gêmeas de Nova Iorque... O mercado brasileiro de publicidade entrou em recessão e a Gazeta, inchada, sem nenhuma reserva de caixa, iria amargar pelo menos seis meses sem a entrada de anúncios pagos...

        A inanição do caixa iria provocar um desarranjo de tal monta na estrutura de porte nacional da empresa que em menos de três anos já lembrava um organismo abatido e abandonado ao sol do deserto...

        Pronto, estava criado o “aroma” que atrai empresários do tipo de Nelson Tanure, chamados de “abutres” pelo mercado – só se interessam por empresas falimentares e têm uma metodologia especial para ganhar dinheiro nessas situações...

MUITO E MUITO LUCRO

        Os números são imprecisos, pois a gestão Tanure teve índice zero de transparência, mas não seria nenhum exagero dizer que o abutre, ao abandonar a Gazeta em maio de 2009, estava meio bilhão de reais mais rico do que quando obteve, em 2003, através de um processo de chantagem, coação  e mentiras, o arrendamento da marca Gazeta Mercantil por 60 anos...

        Basta observar que ele produziu uma redução brutal na folha de pagamento – uma folha que já custara mais de 200 milhões de reais/ano durante a gestão Levy e que na fase de Tanure, tendo em vista que ele, como prometera, não trabalhou com CLT, caiu para menos de 20 milhões/ano...

        Levou ao extremo a cultura do “não pagar”, sequer reembolsava despesas de viagem, trabalhou todo tempo de costas viradas para as leis do país – trabalhistas, tributárias, previdenciárias...

        Dava a todo instante o drible da vaca em Levy e não cumpriu sequer um terço dos compromissos que assumiu pelo contrato de arrendamento...

        Até onde se sabe,  deixou de receber as verbas da publicidade legal (publicação de balanços, editais e atas exigida por lei no caso das empresas de capital aberto) das empresas estatais – cerca de 20 milhões/ano – porque os credores em ações trabalhistas as interceptaram na boca do caixa.

        Mas isto não fez falta, por certo... Mesmo tendo perdido, em função da crise, uma fatia razoável da publicidade legal, a Gazeta continuou a oferecer ao gestor a generosa receita de cerca de 100 milhões de reais/ano vinda da publicação de balanços e editais pela iniciativa privada... Eram valores mais do que suficientes para o abutre saciar a fome e  tocar a sua gestão, medíocre, mas altamente lucrativa...

AVAL DO PT

        A gestão Tanure foi a excrecência da excrecência do capitalismo. E serve para demonstrar o quanto foi falsa e demagógica a Era PT.

        Ela, a gestão Tanure, nasceu e terminou no governo de Luiz Ignácio Lula da Silva (2003 a 2011). Tanure anunciou diante de mais de duzentas testemunhas que não trabalharia com CLT... Prometeu e cumpriu, sem ser incomodado por um governo que tinha raízes profundas no trabalhismo...

        Além disso, Tanure foi o herdeiro e sucessor legal de Luiz Fernando Levy, que havia acumulado uma dívida portentosa com todas as instituições do governo – fiscais e previdenciárias... Levy chegou a dizer, publicamente, que o governo era o grande financiador do projeto de expansão de sua empresa, já que não pagava seus compromissos com instituições governamentais...

        Tanure passou sete anos à frente da Gazeta Mercantil e, simplesmente, deu continuidade à afronta sem ser incomodado...

        E o que é pior: representado pelo mais importante de seus ministros, o então poderoso Zé Dirceu, o governo Lula avalizou a gestão Tanure. Zé Dirceu comparecia a eventos promovidos pela Gazeta Mercantil e, como farinha do mesmo saco, tornou-se amigo de Nelson Tanure.

        Diria que tinham grandes afinidades no mundo dos negócios.

        Afastado do governo por envolvimento no escândalo do mensalão, foi Zé Dirceu – então como “consultor empresarial” – quem apresentou Tanure ao dono da Editora Três, Domingo Alzugaray (falecido em junho deste 2017)... Não por acaso, a Editora Três – proprietária da Revista Isto É – já disparava também aquele aroma típico de uma empresa falimentar, forte atração para abutres do tipo de Nelson Tanure...

        Tendo o “consultor” Zé Dirceu como intermediário, Tanure entrou em negociação com Alzugaray. Já deveria ter tudo planejado: aplicaria à Editora Três o mesmo formato empregado no “arrendamento” da Gazeta...

        Mais esperto que Levy, Alzugaray pulou para trás na última hora. Aproveitou e pediu ajuda ao “consultor-intermediário” para sair da crise... Pediu e conseguiu... A crise da Editora simplesmente evaporou... E onde será que Zé Dirceu foi arranjar dinheiro pra socorrer Alzugaray ?

        Não se sabe ao certo, mas duas coisas ficaram evidentes nessa época: Zé Dirceu começou a mandar na “Isto É” bem mais que o próprio dono e, mesmo após seu afastamento do governo, sua influência nele era enorme... Quem apostar que Alzugaray obteve socorro num dos bancos governamentais terá grande chance de acertar.

......    .......    ......    .......   ......

RECOLHIDO NOS FÓRUNS

        Depois de arrendar a marca de seu jornal a Nelson Tanure, Luiz Fernando Levy achou que poderia manter de pé, cheios de vida, os dois Fóruns de Líderes – o de Líderes Empresariais e o de Líderes Sociais – mesmo sem o apoio que sempre receberam da Gazeta Mercantil.

        Bem antes de morrer, em outubro deste 2017, deve ter descoberto – ou pelo menos suspeitado – de que este era mais um de seus delírios: com a crise que abalou o jornal, os Fóruns estremeceram; com a continuidade da crise, começaram a definhar e, quando em maio de 2009, a Gazeta deixou de circular, os Fóruns morreram. E eu já não estava mais lá, nem pra chorar, nem pra lamentar...

        Quando, em 2004, aceitei o convite de Levy para dirigir o Fórum de Líderes Sociais, o outro Fórum, o de Líderes Empresariais, funcionava em Belo Horizonte. Suas atividades – a organização de eventos e a edição de uma revista, trimestral – foram levadas para Minas Gerais para facilitar a vida do seu então presidente, o economista e pensador Lucio Marcos Bemquerer.

        O Fórum Empresarial, conhecido pela sigla FLE, já fora uma entidade importante. Aglutinava sempre a nata da nata do empresariado brasileiro. Nomes como Antônio Ermírio de Moraes, Abílio Diniz, Cláudio Bardella, Jorge Gerdau Johampeter, José Mindlin, Luiz Fernando Furlan, Olavo Egydio Setubal, Rinaldo Campos Soares se mantiveram em seu Conselho Consultivo até os últimos dias.

        Na década de 1970, os conselheiros do FLE redigiram um documento em favor da democracia que impactou o processo de abertura política do regime militar.

        Hermann Wever, o presidente da paulistana Siemens do Brasil, substituiu Lucio Bemquerer na presidência mas ainda assim as atividades do Fórum se mantiveram em Belo Horizonte.

        Nelson Tanure já imperava na Gazeta e o jornal reduzia, substancialmente, sua ligação com os fóruns, enquanto os conflitos entre Levy e o novo gestor do jornal aumentavam. Aos poucos, Tanure radicalizava a sua “cultura do não pagar”.

        Talvez fosse apenas paranoia, mas Levy começou a temer que lhe aplicassem um golpe e tomassem dele também a gestão dos Fóruns. Agiu rápido: destituiu Hermann Wever do Cargo e nomeou o então presidente da Serasa, Elcio Anibal de Lucca... (na fase terminal do Fórum e da Gazeta, Elcio seria substituído por Ozires Silva)...

        Em seguida, trouxe as atividades do FLE para São Paulo: queria estar perto de tudo para se sentir confiante...

        Entregou-me a edição (mensalizada) da revista Fórum de Líderes como atividade paralela à direção do Fórum de Líderes Sociais... Acertamos, claramente, mais uma remuneração pela nova atividade... Deixei claro para ele que mesmo somando as duas remunerações não atingia o salário que eu estaria recebendo pela Gazeta Mercantil.

ENFIM, UMA ATIVIDADE AGRADÁVEL

        A edição da Revista Fórum de Líderes foi das poucas atividades que me deram prazer nos meus oito anos de Gazeta Mercantil. Fiz entrevistas e editei reportagens memoráveis...

        Fui talvez um dos primeiros jornalistas a entrevistar Roberto Rodrigues, tão logo renunciou ao Ministério da Agricultura... Produzimos um claro entendimento das razões que o levaram a deixar o governo Lula e avançamos em informações que permitiram prever o boom do agronegócio que o país passaria a viver em seguida...

        Entrevistei Roberto Romano, professor e filósofo da Unicamp, que previu a imersão do Brasil na avassaladora crise Ética dos dias atuais... A meu pedido, a jornalista  Ruth  Helena Ballinghini, especializada em Ciência, fez uma entrevista de impacto com a geneticista Mayana Zats com explicações didáticas sobre a diferença entre células-tronco e células-tronco embrionárias, compreensão capital para o entendimento dos avanços do uso da genética  em tratamento de doenças crônicas e lesões medulares...

        Na primeira edição da nova fase, a revista publicou extensa reportagem, produzida pelo jornalista Lucas Tavares, então residente em Santiago, sobre a enigmática vitalidade da economia chilena... Lucas ouviu praticamente todos os mais expressivos economistas chilenos, inclusive vários dos Chicago’s Boys, como eram chamados os jovens egressos da Universidade de Chicago, que sob o mando do tenebroso Augusto Pinochet, impuseram ao Chile uma experiência radical da teoria neoliberalista... Se foi guardada  em alguma biblioteca, essa revista deve ser fonte obrigatória de consulta a quem quiser entender porque o Chile tem dado tão certo...

DOIS GRANDES ARTISTAS

        Foi também durante o trabalho de edição da Fórum de Líderes que eu conheci e aprendi a admirar Jô Acs e Mozart Acs, pai e filho, dois artistas gráficos simplesmente geniais. Eles me foram apresentados pelo amigo Antonio Carlos Baumann e me acompanharam do começo ao fim da jornada pelo Fórum...

        Aprendi com eles que arte gráfica em revista e internet é coisa especializada e séria... Por mais ferramentas de ajuda que a internet nos oferece hoje em dia, não se deve improvisar... Um site e uma revista feitos por amador, terão sempre cara de amador...

        Lembro-me que Levy era sempre tomado por uma forte expectativa nos dias que antecediam a chegada de uma nova edição da revista... Sempre vinham me contar que ele apanhava um exemplar, folheava, sorria e fazia sinais de aprovação com a cabeça... Nunca me fez – seu estilo – elogios rasgados pelo trabalho, mas também nunca fez nenhuma queixa por algo que o desagradasse, a não ser uma vez, na fase final do meu trabalho ao lado dele...

        Ele me pedira para entrevistar o dono do Rubaiyat, seu amigo Belarmino Iglesias (falecido também neste 2017)... Fiz a entrevista e me encantei com o personagem... Contei com emoção a saga do garçom espanhol que desembarcara ainda jovem no porto de Santos, sem dinheiro no bolso, e se transformara no dono de uma das redes de restaurantes mais sofisticadas do mundo, com três lojas em São Paulo, todas em bairro de elite, uma em Buenos Aires (foi ele que apresentou a picanha aos argentinos) e outra em Madrid, na Espanha...

        A revista circulou e eu na primeira oportunidade perguntei a Levy:

        - Viu a matéria do Belarmino? Gostou ?

        Ele:

        - Vi... Ficou boa. Faltou o “i” do Rubaiyat, né? É um erro que não pode acontecer...

        Liguei meus radares... Comecei a me lembrar com mais frequência do  que me dissera meu saudoso amigo Cláudio Lachini tão logo soube que eu iria trabalhar em linha direta com Levy:

        - Fique esperto! Quando menos esperar, ele lhe trai... Trair faz parte da índole deste senhor!

        Uma semana depois, eu e Levy fomos almoçar com Belarmino Iglesias no Rubaiyiat-Porto, em São Paulo. Levy havia me pedido pra escrever um livro sobre a campanha, liderada pela Gazeta Mercantil, que introduziu o novilho precoce no Brasil. Belarmino Iglesias havia sido um importante personagem da campanha e Levy queria que tivéssemos uma primeira conversa pra acertar detalhes de uma entrevista mais longa, para o livro... Fiquei impressionado com o modo gentil com que Belarmino Iglesias me tratou  durante todo o almoço... Saí do restaurante ao lado  dele, abraçou-me para dizer ao pé do ouvido:

        - Foram as melhores palavras que já escreveram sobre mim durante toda minha vida...lindas, lindas, lindas !

        E eu que pensei que ele iria reclamar da falta do “i”...

E APARECE O VERDADEIRO CARÁTER

        Já em agonia, os Fóruns foram transferidos para uma sala apertada de uma torre comercial pertencente a um dos amigos de Levy numa travessa da avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini (SP)....

        O aperto, para azar do patrão, não comportava segredos e nem cochichos...De modo que eu ouvi tudo, desde o momento que ele, Levy, ordenou a dois de seus capachos, o ex-cunhado Gustavo Aranha entre eles, a me espremer para forçar minha saída até a comemoração – “Ótimo, ótimo!” – ao receber a  informação de que eu havia capitulado...

        Se recusavam a admitir que eu havia combinado com Luiz Fernando Levy uma remuneração extra pela edição da revista embora todos pudessem observar que as atividades do Fórum Social nunca sofreram interrupção... Coisas de gente sem caráter...

        No fundo, caí em desgraça com Luiz Fernando ao contrariar, por puro profissionalismo, o interesse na revista de um de seus chupins familiares... Foi o que aconteceu...  


Belarmino Iglesias


 Restaurante Figueira Rubaiyat

16/11/2017

Efromovich e Tanure, dois predadores no caminho da Gazeta Mercantil em agonia!

Luiz Fernando Levy não conseguia pronunciar o nome dele... chamava-o de “Hermafrodita”...

Fez uma viagem num de seus aviões e falou muito mal: “Assentos quebrados, sujeira por todo lado, serviço de bordo bem vagabundo!”

Já era um prenúncio que duraria pouquíssimo tempo a parceria firmada com German Efromovich, empresário do Rio de Janeiro, que se dizia inimigo de Nelson Tanure, dono de um estaleiro para montagem de plataformas submarinas e da OceanAir, hoje Avianca, empresa de aviação aérea...

Não se sabe o tipo de acordo que Levy firmou com ele... ouvia-se dizer que Levy, o controlador da Gazeta Mercantil, falecido em outubro deste 2017, se afastaria das operações financeiras e administrativas para entregá-las ao novo parceiro.

Foi passageira a era Efromovich. Rompeu o acordo tão rapidamente quanto o selou. Deixou, contudo, marcas reveladoras de seu estilo: suprimiu telefones celulares pagos pela empresa a seus executivos e introduziu relógio de ponto na redação. Funcionários que haviam passado meses a fio sem receber salários, viam-se então obrigados a manter expedientes rigorosos, como numa fábrica de parafusos. 

Dizem que assegurou o suprimento de papel com a ameaça de concorrer com o fornecedor abrindo, ele mesmo, uma trading para fornecer o insumo a todos os jornais brasileiros. Fez a mesma coisa com a operadora de telefonia, que então amargava longa inadimplência nas contas: ou renegociava a dívida ou a Gazeta trocaria de fornecedor do serviço.

Não se sabe se Efromovich desistiu de Levy ou Levy desistiu de Efromovich.

Após bater em retirada, circulou pela empresa o boato de que fizera a Levy uma proposta “indecorosa” para pagamento do passivo trabalhista. Deixou, contudo, um enigma até hoje não decifrado: teria gravado a conversa com dois jornalistas – um dos quais com várias passagens pela redação do jornal – pela qual tentavam achacá-lo em meio milhão de dólares durante o caso de afundamento de uma de suas plataformas de prospecção de petróleo que  havia fornecido à Petrobras. 

Verdade ou mentira, ambos ainda estão por aí atuando como jornalistas influentes!

RUIM COM ELE, PIOR SEM ELE

Sem Efromovich, a situação interna deteriorava-se dia após dia. Depois de sofrer uma refrega na primeira fase da crise, o Sindicato dos Jornalistas estava de volta à redação – promovia assembleias, conversações, exigia diálogo com dirigentes da empresa, agitava. 

A erosão de talentos com a saída voluntária de editores, repórteres, aprofundava-se. O abatimento que tomava conta das pessoas, dentro e fora de São Paulo, refletia-se na qualidade do caderno Gazeta do Brasil, que eu passara a editar, nessa época já transformado quase numa caricatura das edições  iniciais.

Começávamos, enfim, a rezar para que tudo tivesse  um desfecho, ainda que fosse pelas mãos de Nelson Tanure. 

Enquanto isso, Tanure administrava seu objetivo de ter o controle da Gazeta Mercantil na base da guerra de guerrilha. Coincidência ou não, colunas de jornais, informativos da Internet, amanheciam todos os dias com notas infamantes contra a Gazeta, como se fossem balas de uma metralhadora giratória descarregadas contra a já anêmica empresa.

Tanure entrava em contato com o Banco das Américas e negociava a compra do passivo da Gazeta Mercantil, um dos débitos que Levy questionava na justiça, e espalhava a notícia de que o negócio transferia-lhe o controle acionário do jornal.

Levy não poderia mesmo suportar tamanho desgaste por muito tempo. Em outubro de 2003, estava próximo da rendição.

Relutou o máximo que pode e depois de confirmar que o Grupo Estado, também envolvido por crise de endividamento, perdera o interesse na compra da Gazeta, Levy mandou ao Rio de Janeiro um  enviado para reatar a negociação com Nélson Tanure.

EIS QUE SURGE O ESTILO TANURE

O escolhido para a missão foi Xerxes Gusmão (já falecido). Ia e voltava. A cada viagem, trazia informações “animadoras” sobre a proposta de Tanure a Levy. Não demorou muito para que os dois se encontrassem e fechassem um acordo pelo qual a marca da Gazeta era arrendada por um período de sessenta anos.
   
Sem saber com quem lidava, Levy fez o que pode para assegurar a preservação de seu patrimônio: exigiu que ele mesmo presidisse dali em diante, pelos primeiros seis anos do contrato de arrendamento,  o conselho editorial da Gazeta Mercantil, condição ampliada, por “gentileza” de Tanure, ao Jornal do Brasil e à Revista Forbes. 

Ficou também com a administração dos dois Fóruns (de Líderes Empresariais e Fórum de Líderes Sociais). Transferiu para Tanure, mediante contrato público registrado em cartório do Rio de Janeiro, todo o passivo da empresa: trabalhista, com fornecedores de produtos e serviços e vários outros. Também pelo contrato, Tanure via-se obrigado a transferir para Levy um percentual anual sobre as receitas do jornal para fazer frente aos compromissos da empresa com o Refis II.

Assinado o contrato, Tanure fez sua primeira aparição em São Paulo. Teve várias reuniões com executivos da empresa e achou tempo para um encontro com os editores do jornal. Começava a revelar então seus planos para mais aquele veículo (então, já detinha o controle do Jornal do Brasil e da revista Forbes) que acabara de assumir:

- Chega de mentiras!, disse em voz alta, sabendo que agredir o controlador da empresa seria do agrado da maioria das pessoas que formavam a sua seleta plateia.

Anunciava ali a rapidez com que iria providenciar a mudança do jornal daquele prédio:

- A empresa não tem condições mais de permanecer neste palácio ! (Referia-se ao prédio de Santo Amaro (SP), que pertencia aos Fundos de Pensão; há vários anos, a Gazeta não pagava aluguel)

Por último, ao responder uma pergunta sobre possíveis demissões, anunciou o regime que iria impor à relação trabalhista com os funcionários da Gazeta Mercantil:

- Eu não sei dizer o que eu "vou" fazer. Só sei dizer o que eu "não" vou fazer. Eu não trabalho com CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Não trabalho com CLT. Lá com o pessoal do Jornal do Brasil encontramos um novo regime de trabalho e as pessoas estão muito felizes (era mentira). 

DOCE ILUSÃO

O acordo com Tanure despertou-nos a expectativa de que iríamos receber ao menos o salário atrasado do ano. Aos poucos, descobrimos que o seu refrão – “Chega de Mentiras!” - era apenas instrumento de seu oportunismo. 

Foi ele mesmo quem encorajou a formação de uma comissão de  funcionários com o objetivo de negociar um acordo para pagamento dos salários atrasados. Sua primeira exigência foi separar os atrasados dos anos anteriores (passivão) dos atrasados ocorridos em 2003 (passivinho).

Ao cabo de dezenas de reuniões, no Rio de Janeiro, em São Paulo, com Tanure, sem Tanure, com seus executivos, o acordo, tanto para pagamento do passivão como do passivinho, ficou para as calendas. “Chega de mentiras !”- o que será que Nelson Tanure quis dizer exatamente com isso ?

Já em fins de 2003, sob a gestão de Tanure, os salários foram reduzidos. Ele chegou a contratar um despachante em São Paulo para promover a abertura de empresas individuais para os funcionários. Não pagou o escritório contratado, mas aumentava a pressão interna para que todos (exceção dos salários mais baixos, mantidos no regime da CLT) passassem a receber por notas fiscais, como terceiros.

MAS QUE BELO SINDICATO !  

E o Sindicato dos Jornalistas entrava  em cena apenas para tornar o ambiente interno ainda mais confuso. A entidade chegou a impetrar uma ação, em nome dos funcionários, para forçar que Tanure pagasse ao menos o passivinho. 

A ação tinha tantos defeitos técnicos que os advogados de Tanure conseguiram derrubá-la ainda em primeira instância. Em seguida, o Sindicato tentou uma nova ação, mas já sem apoio de funcionários. Usou nome de alguns funcionários à revelia (pura indecência!) e não deu mais informações sobre o destino da ação. Deve ter ficado também para as calendas.

A mudança de prédio ocorreu rápida. Passamos a trabalhar numa pequena torre da rua Ramos Batista, em Vila Olímpia. A redação ocupava na época quatro andares do minúsculo prédio e ainda assim não tínhamos sequer a metade do espaço que usávamos no “palácio” de Santo Amaro.

Com paredes de vidro, do meu assento de trabalho via quando o então presidente do Sindicato, Frederico Ghedini, o Fred, chegava com sua viatura lá embaixo, na rua. A cena deixava-me ainda mais deprimido. Fred puxava um alto-falante de dentro do carro, colocava-o sobre o teto, passava a mão num microfone e começava a gritar: “Desçam todos, desçam todos, vamos protestar contra os donos da Gazeta Mercantil”. Temos o nosso Lula, eu pensava, temos o nosso Lula!

Descíamos, nos expúnhamos de corpo e alma às pessoas que passavam pela Ramos Batista, alheias ao drama que todos vivíamos. Intercalávamos reuniões com o Sindicato às reuniões com os membros da comissão de negociação. Estes sempre tinham “novidades” sobre as conversas mantidas com Tanure. Eu mesmo já me via desesperançado em relação a uma coisa e outra. Participava das reuniões por participar...

CHURRASCO DE COSTELA

Chegávamos ao final de 2003 e eu começava a pensar em qual seria meu destino na nova empresa. Claus Kleber praticamente assumia a responsabilidade pela edição do jornal ocupando o espaço de Luiz Recena (substituto de Roberto Muller), quase que instantaneamente rejeitado por Tanure. 

Não ficou clara para ninguém porque Tanure não quis saber de Recena. Correu apenas o boato de que os dois tiveram um jantar em São Paulo durante o qual Tanure teria feito ao jornalista a pergunta clássica de quem analisava a possibilidade de mantê-lo no cargo. Teria ocorrido um rápido e fulminante diálogo entre os dois:

Tanure: Diga lá, ô Recena, o que você sabe fazer ? 

Recena: O que eu sei fazer, como gaúcho, é um bom churrasco de costela !

Kleber convidou-me para voltar a editar Saneamento e Saúde e logo em seguida me desconvidou. Contaram-me que o “desconvite” foi ainda por influência de Recena. Não cheguei a dizer não, mas estava decidido a recusar. Não queria na empresa mais nenhum cargo que me mantivesse em São Paulo. 

Preferi ficar com a oferta de Xerxes Gusmão: voltar para Campinas na condição de diretor regional e administrar um pequeno escritório mantido pela empresa. Por ingenuidade, cheguei a sonhar com a possibilidade de refazer com o tempo o mesmo projeto da fase anterior para o interior paulista. Meu salário caiu para menos de um terço, o que aceitei sob a promessa de que receberia comissão sobre negócios que o escritório fechasse. 

Por sugestão do próprio Xerxes programei uma visita de Nelson Tanure a empresas de Campinas. A agenda já estava organizada quando sou informado da novidade: Xerxes Gusmão fora transferido para o Rio de Janeiro e substituído na direção comercial da empresa em São Paulo por Flávio Pestana, o ex-presidente do Valor Econômico.

Não posso dizer que Pestana era arrogante. Os arrogantes olham seus interlocutores de cima para baixo. Pestana os olha de baixo para cima. Um olhar estranho: passa a sensação de que tem aversão ou ódio das pessoas que se aproximam dele.

SAPATO APERTADO

Iniciamos uma relação de trabalho que eu, por antecipação, sabia que não daria certo. Sob as asas de Tanure, o sapato de Pestana ficara muito apertado. Tratava-me como um general que venceu a guerra trata os oficiais - ou soldados - do exército derrotado. Deveria ter-se esquecido de que perdera também a guerra de desenvolvimento do Valor Econômico, mídia que não decolou enquanto esteve sob seu comando.

A visita de Tanure aconteceu já em meados de março de 2004. Pestana não permitiu que eu viajasse  ao lado do empresário no carro que os levou do aeroporto de Viracopos até Campinas. Tive de acompanhá-los em outro carro. Conversei com Tanure por uns dez minutos numa lanchonete do aeroporto. Vi nele apenas um problema: não ouve as pessoas. Fala mais do que ouve. Passa recomendações rápidas e encerra o assunto, com a objetividade dos espertos ou dos rápidos. Deveria fazer um curso de “escutatória”. 

Queria falar a ele do potencial do interior de São Paulo, considerado o segundo mercado do país, depois da Grande São Paulo; queria falar-lhe da importância de voltar a investir na região, mas não tive chance. Visitou duas empresas de energia elétrica (o presidente de uma delas, a CPFL, não quis recebê-lo) propôs a realização pela Gazeta de seminários para ajudar na definição do marco regulatório do setor e foi embora. Nunca mais o vi. 

MAS QUE BELO REGIME!

Mais alguns meses de trabalho e consigo observar o regime estabelecido pelo novo gestor, Nelson Tanure, à Gazeta Mercantil: poderia ser chamado de regime do “não pagar”, do “não pagar”. Forçou para que todo o passivo trabalhista fosse parar na justiça. Não pagou nenhum tostão dos salários atrasados. Não pagava sequer míseras despesas de serviços realizados pela empresa. Não pagava comissão sobre venda. Até Flávio Pestana reclamava da insuportável cultura do “não pagar”.

Suportei mais dois meses desse persistente “não pagar” e resolvi pular fora. Fiz uma visita a Levy com o intuito de despedir-me e ele convidou-me para dirigir o Fórum de Líderes Sociais do Brasil. Estávamos em junho de 2004. Levy começava a respirar novamente depois de atravessar a longa turbulência. Preparava-se então para também conviver com a cultura do “não pagar”.

Soube então que Xerxes Gusmão retomara o comando de algumas estruturas da Gazeta, entre as quais o pequeno escritório de Campinas, ainda por ser montado. Voltava a ser meu chefe imediato. Sabia que não receberia nenhum tostão das verbas rescisórias. 

Estranha a maneira de deixar uma empresa onde trabalhei por seis anos a fio. Telefonei para Xerxes Gusmão no Rio de Janeiro e disse apenas:

- Fui!

(No próximo e último capítulo desta série, falarei do fim da Gazeta e da ascensão e declínio dos Fóruns, uma experiência de trabalho que me fez enxergar o verdadeiro caráter de Levy)



Luiz Fernando Levy